Vencedor do Nobel de Física, Michel Mayor é Doutor Honoris Causa da UFRN desde 2006

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Suíço tem parceria com pesquisadores da instituição desde 1985 e possui grande amizade com professor potiguar. Atualmente, UFRN participa de projeto com Mayor que constrói equipamento para descoberta de planetas como a Terra.

Um dos vencedores do Prêmio Nobel 2019 de Física, anunciado nesta terça-feira (8), o astrônomo suíço Michel Mayor recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em solenidade que aconteceu em 2006 no campus de Natal. A honraria foi dada devido a uma relação estreita e antiga do suíço em projetos parceiros com professores pesquisadores da instituição.

A relação mais duradoura e próxima dele é com o professor potiguar José Renan de Medeiros, de 67 anos, do Departamento de Física da UFRN. José Renan foi orientado no seu doutorado, em Genebra, por Michel Mayor entre os anos de 1985 e 1990. Nesse período, fez parte da equipe comandada pelo suíço, com quem criou uma relação também pessoal que dura até hoje, e viu os primeiros passos das pesquisas sobre os exoplanetas.

“Quando eu cheguei, ele estava começando os primeiros trabalhos com o instrumento que havia construído exatamente pra iniciar essa epopeia do exoplaneta. Mas naquela época não havia nenhum sinal disso. Quando eu chego em Genebra, ele me coloca para tratar de alguns casos científicos utilizando o instrumento chamado ‘Coravl’, que é um detector feito para analisar a luz das estrelas e, analisando a luz, tentar detectar se existe um companheiro em torno dela. E se esse companheiro é outra estrela ou um planeta”, lembra o professor José Renan de Medeiros.

Pesquisa em parceria

Atualmente, a UFRN integra um projeto em parceria com a equipe do professor Michel Mayor, da Universidade de Genebra, e outras instituições de ponta do mundo. Os pesquisadores envolvidos trabalham na construção de um detector dedicado exclusivamente a buscas de planetas como a Terra que orbitem outras estrelas.

Há pesquisadores da UFRN envolvidos na construção direta desse equipamento tanto em Genebra, na Suíça, quanto em Montreal, no Canadá. O equipamento vai ser instalado no Observatório de La Silla, no Chile.

“Vai ser um detector de exoplanetas instalado no maior observatório astronômico o mundo. Nós vamos olhar para as descobertas de exoplanetas e lá vai ter a UFRN”, explica o professor José Renan de Medeiros, que também é coordenador desse projeto, chamado NIRPS, na Universidade.

“O que se anuncia é a colocação da UFRN dentro desse ciclo de casos científicos ‘top’, que são esses casos que estão associados a busca de planetas tipo Terra. Nós não vamos só ter condições de detectar o planeta, mas também de analisar a atmosfera do planeta e ver se teríamos as moléculas de elementos químicos que temos na Terra. É algo que nós acreditamos que vai ser uma revolução pra ciência como um todo. Porque essa questão de vida lá fora tem um contexto filosófico muito forte. Talvez a pergunta de se existe vida lá fora seja a que mais perturba a mente humana”, reforça o professor.

O equipamento, que teve o seu projeto arquitetônico feito em Natal, deve começar a ser instalado em novembro e ter início das operações em abril do próximo ano. Todo o desenvolvimento dessa pesquisa será ao lado de Michel Mayor.

Dentro desse projeto, o professor potiguar reforça a necessidade do compromisso de pesquisadores da UFRN na utilização e manutenção do laboratório no Chile. Ele diz que o contingenciamento de verbas anunciadas pelo Governo Federal para a Educação neste ano tem afetado o número de pesquisadores atuantes, mas aponta que será preciso lutar pelo seguimento desse projeto.

“Nós estamos sofrendo. Nós deveríamos ter mais duas pessoas trabalhando em Montreal e só pudemos mandar uma. A partir de agora nós vamos ter uma nova luta. Temos uma responsabilidade assumida de participarmos da manutenção do laboratório no Chile. E isso precisa de recursos financeiros. Efetivamente é um momento delicado, mas temos que acreditar. Se nós batermos a porta e abandonarmos tudo, não vamos a lugar nenhum”, diz.

Os pesquisadores da UFRN participaram também da construção do Pente de Frequência Laser em anos recentes, que visa busca por exoplanetas. “Podemos até não descobrir uma Terra lá fora. Mas quem descobrir vai citar a UFRN”, diz.

‘Alguma coisa ia acontecer’

Quando o professor José Renan de Medeiros foi fazer o seu doutorado em Genebra, as pesquisas com exoplanetas sequer eram debatidas naquele ciclo de forma científica. Mas ele disse que percebeu o tamanho da descoberta de Michel Mayor em 1995 pela repercussão que aquilo havia tomado.

“Eu pensava que devia ter algo grandioso ali por trás que a gente não consegue perceber. Não é a toa que as pessoas estavam ali, a imprensa. Era algo grandioso. Deu pra começar a perceber que potencialmente alguma coisa começava a se manifestar no reconhecimento de Michel Mayor”, conta ele.

Ele cita que a partir de 2010, quando começou a grande onda de descobertas do suíço, começou a expectativa para o Prêmio Nobel. “Dava pra perceber que alguma coisa ia acontecer. E aconteceu hoje”, cita.

Quando soube do Prêmio Nobel dado a Michel Mayor, o professor potiguar conta que relembrou das pesquisas iniciais, da convivência das famílias e dos aprendizados que teve com ele em Genebra. A relação de amizade já dura 34 anos.

Astrônomo da UFRN e do Centro Smithsonian de Atrosfísica de Havard, José Dias do Nascimento Júnior diz que faz quase 10 anos que era esperado que o professor Michel Mayor levasse o prêmio Nobel. “Ele abriu uma nova linha na física. Foi a primeira comprovação dos exoplanetas. [Antes], quando se mandava um artigo para revistas sobre exoplanetas, existia descrença”, explica José Dias.

“Com a primeira descoberta, se percebeu que exoplanetas parecidos com os nossos existiam e podiam ser detectados em outras estrelas”, explica ele, cuja equipe na UFRN participou da descoberta de um exoplaneta, o TOI-197.01, em março.

Os suíços não observaram o planeta diretamente: a detecção dele foi feita por meio de observações da estrela que ele orbitava. Os cientistas mediram a diferença de cor na estrela, que permitiu entender que ela estava se mexendo, da perspectiva de quem via da Terra, num movimento de vaivém. Eles conseguiram calcular, a partir dali, que o que estava causando aquele movimento era a gravidade de um planeta. Ou seja: eles não viram o planeta – e sim o efeito que ele causava na estrela que orbitava.

O astro descoberto em 1995, que foi batizado de 51 Pegasi b, era uma bola gasosa comparável, em tamanho, a Júpiter, com cerca de 150 vezes a massa da Terra, explica José Dias. Ao contrário de Júpiter, entretanto, que leva cerca de 12 anos para girar em torno do Sol, esse planeta novo só precisava de 4 dias para dar a volta ao redor de sua estrela. Desde então, houve cerca de 4 mil exoplanetas confirmados

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