Imunidade de curados de covid é incerta, diz presidente do Einstein

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Coronavírus já tem mais de 30 cepas, e só haverá vacina em massa em 2021

A imunidade de quem fica curado da covid-19 é incerta, segundo o presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Sidney Klajner. A ciência ainda não tem a resposta sobre o grau proteção de indivíduos que desenvolvem anticorpos para essa doença.

Por essa razão, explica Sidney Klajner, será necessário manter os hábitos mais rígidos de higiene que foram disseminados durante a pandemia do coronavírus. Também será preciso praticar isolamento social nas localidades em que os casos de contaminação sigam em expansão.

Para Klajner (pronuncia-se “Klái-ner”), que tem 52 anos e é cirurgião do aparelho digestivo e coloproctologista, só haverá vacinas contra a covid-19 em massa ao logo do 1º semestre de 2021.

O Einstein foi o 1º hospital a registrar oficialmente casos de covid-19 no Brasil. O presidente da instituição relata que não há ainda como dizer qual é o padrão de imunidade que se manifesta em diversas pessoas que se recuperam depois da infecção pelo coronavírus.

Depois da cura, há pessoas que têm imunidade em até 45 dias. Mas outros indivíduos se curam sem desenvolver esse anticorpo, chamado de IGG (imunoglobulinas classe G).

Assista à entrevista gravada em 3 de junho de 2020 (49min18seg):

“A gente tem orientado quem tem alta do hospital ou quem se cura depois de 14 dias de sintomas leves a ter um comportamento igual, como se não tivesse tido a infecção, com uso de máscara, álcool em gel. A imunidade não é tão confiável como em outras viroses, como sarampo e catapora”, completou.

O presidente do Albert Einstein acredita que a pandemia ainda deve durar algum tempo no Brasil, afetando datas festivas como o Réveillon deste ano e o Carnaval de 2021. Na melhor das hipóteses, segundo ele, a vacina contra o coronavírus ficará pronta no fim deste ano para a indústria, mas a distribuição em larga escala no mundo não se dará antes de meados do próximo ano.

Sidney Klajner disse que o uso de máscara e de álcool em gel continuará por este período. Também deverão ser mantidas medidas para evitar a aglomeração de pessoas.

“Não existe bala de prata”, afirmou Klajner sobre medicamentos no tratamento de covid-19, citando a hidroxicloroquina e a cloroquina. Ele disse que essas substâncias, apesar de serem utilizadas no tratamento de outras doenças, como a malária, não são eficientes para tratar a patologia provocada pelo coronavírus. Além disso, podem provocar complicações em pacientes com problemas cardiovasculares.

“Todos esses medicamentos estão sendo estudados. Aí entram muitas emoções, muitas paixões. Uma das melhores frases que eu vi neste caminho é que está na hora de a gente voltar a ter 200 milhões de técnicos de futebol e parar de ter 200 milhões de cientistas e médicos”, ironizou o presidente do Albert Einstein.

A covid-19 é diferente de outras doenças respiratórias, explicou. “É uma doença sistêmica. O novo coronavírus acomete nervos, acomete vasos, artérias, sistema nervoso central, o pulmão de uma forma muito mais frequente, mas em cada situação, em cada momento, a gente tem que ter uma caixa de ferramentas de onde possamos tirar a ferramenta adequada”, declarou Sidney Klajner.

O médico criticou a forma como as autoridades públicas adotaram e comunicaram políticas de combate à pandemia. De acordo com o presidente do hospital, houve uma atitude “ambígua” dos governos federal e dos Estados. “O que fez com que parte da população escolhesse em quem eu vou acreditar, a despeito de cada uma das regras impostas por cada município”.

“Só existe o isolamento social como forma de conter a disseminação para que o sistema de saúde não ultrapasse a sua capacidade. E o entendimento de que esse isolamento não seria necessário partiu não da informação pautada pela ciência ou da experiência de outros países, mas muito mais por conta de acreditar não ser necessário, o que já se mostrou ser uma atitude errada”.

Klajner afirmou que, além da transmissão para a pessoa que está nestes locais, há risco de contaminação de familiares e idosos, que correm risco de desenvolver um quadro mais grave.

Mestre em cirurgia do aparelho digestivo pela faculdade de medicina da USP (Universidade de São Paulo), Sidney Klajner ganhou o prêmio de executivo mais influente da Saúde, segundo a revista Healthcare Management do Grupo Mídia, em 2018.

TESTES PARA COVID-19

O Hospital Israelita Albert Einstein anunciou em 21 de maio que fará testes para verificar o grau de disseminação do vírus. De acordo com o presidente da instituição, será possível fazer 25.000 testes por semana –o equivalente a 100.000 por mês.

“Praticamente triplica ou até quadruplica a capacidade que nós temos hoje”, declarou. “Ele é chamado de NGS (sequenciamento de última geração, na sigla em inglês)”.

A coleta é feita com as secreções da rinofaringe (nariz) e da orofaringe (boca). “A sensibilidade do vírus já começa no 1º dia de infecção, porque o vírus está presente. A carga viral maior aumenta a sensibilidade do teste. Então, a chance de o teste não detectar o vírus, estando infectado, é menor do que 10%. Tem mais de 90% de sensibilidade”, afirmou o médico.

Não há falso positivo na testagem.

Ele declarou que ainda não há custo para que o teste seja feito em nível comercial. “O nosso desejo é que a gente possa transferir tecnologia, seja para o governo, seja para o setor privado, para outros laboratórios”, afirmou.

Klajner afirmou que a transferência teria tratativas comerciais.

“A grande vantagem seria ter o teste maciço”, afirmou. “Isso nos dará a informação do quanto imune nós estamos, quanto isolados dos que testam positivos temos que ficar”, completou.

Atualmente, está disponibilizado para pacientes do Einstein. “À medida em que as conversas caminham, tanto com laboratório de outros países, até a fábrica que produz equipamento, indústria farmacêutica, nós estamos tendo algumas conversas de outros terceiros interessados na tecnologia para que isso possa ser difundido”, disse o presidente da instituição.

A expectativa é de que no fim de junho ou início de julho o teste seja feito em escala mais ampla.

A tecnologia foi patenteada em nível internacional porque não há, segundo ele, precedentes no mundo do desenvolvimento da técnica.

Sidney Klajner disse que há 2 grupos de testes: o que mede a presença do vírus e o que verifica se há anticorpos no organismo, que são as moléculas de defesa que combatem o coronavírus.

Os testes rápidos fazem parte do 2º grupo. Ou seja, verificam se o paciente já teve a infecção. “Numa pandemia onde pouco se conhece a respeito do comportamento imunológico, é normal você ver o número altíssimo de falsos negativos no teste imunológico. Ele hoje serve muito para estudos epidemiológicos, visando a retomada das atividades do que propriamente o diagnóstico”, afirmou o presidente da instituição.

O laboratório de biologia molecular do hospital desenvolveu a metodologia que permitiu ao Einstein fazer o 1º diagnóstico, em 26 de fevereiro.

A tecnologia é usada de forma padronizada internacionalmente para detectar viroses: o PCR (Reação em Cadeia da Polimerase, na sigla em inglês). Ele faz parte do grupo de testes que detectam a presença do vírus. O instrumento é uma ampliação do RNA (ácido ribonucleico), que é identificado por uma técnica já conhecida para outras viroses. A tecnologia é usada de forma padronizada internacionalmente.

“O mundo hoje disputa os reagentes e os insumos para realização do PCR, que é um teste que cada rodada da máquina consegue fazer 96 testes”, disse Klajner.

A tecnologia NGSs foi feita por uma startup vinculada ao Einstein em troca de informações com o laboratório de biologia molecular. Com a máquina, não é necessária a disputa por insumos e reagentes que são usados no PCR, além de ter custo mais barato.

“Cada rodada do equipamento faz 1.536 exames. Quer dizer, 16 vezes mais, permitindo aquilo que o Brasil almeja, que é a testagem em massa para que a gente possa ter a retomada das atividades com mais segurança”, disse Sidney Klajner.

VACINA NO BRASIL

De acordo com o presidente do Albert Einstein, o brasileiro ainda passará 1 tempo longo evitando aglomerações e atividades que elevem a chance de transmissão da doença. Ele estima que se todos os testes que estão em andamento derem certo, como na Universidade Oxford, na Inglaterra, haverá vacina para o Brasil no melhor dos cenários em meados de 2021.

As pessoas que já foram infectadas e que não apresentam mais sintomas têm que continuar a ter cuidado, porque não há certeza na ciência sobre o grau de imunidade que cada uma gera.

Além disso, o vírus tem mutações: há 30 cepas diferentes no Brasil, sem falar em outros países. “As vezes, o IGG é 1 anticorpo voltado a uma característica genética e a mutação do vírus ‘dribla’ essa imunidade. Existem diversos fatores ainda a serem descobertos e que têm atrasado também, obviamente, a criação de uma vacina, porque a vacina depende da geração de imunidade em uma pessoa”, explicou.

O médico disse que o país poderá passar por 1 processo de reabertura, mas com reforço nas medidas de higiene.

“Infelizmente, a gente vai viver com a sombra, ou com esse fantasma da infecção por um tempo longo”, disse. “Quer dizer: aglomerações como jogos de futebol, cinemas, acho que elas vão voltar de um jeito muito diferente ou aguardar, realmente, o retorno”, afirmou Sidney Klajner.

Segundo ele, a única forma encontrada pela medicina para evitar a transmissão é o distanciamento social.

“A população tem que ter a consciência de que a única forma de evitar a transmissão, principalmente a essa população que é cada vez maior por conta de obesidade, hipertensão, diabetes, mesmo pacientes jovens que têm essas comorbidades… Então, acho que nós vamos viver com essa sombra até o final 2021”, declarou.

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