“Nossa vida vale mais do que levar um prato de comida para as pessoas”

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Motoristas de aplicativos voltam às ruas em segunda paralisação contra aplicativos de entregas para pedir mais direitos no trabalho

Pela segunda vez no mês, entregadores de aplicativos de diversas cidades do Brasil promoveram uma paralisação nacional para pedir melhores condições de trabalho. O movimento, batizado de breque dos apps, em alusão a empresas como iFood, Uber Eats e Rappi, pede um reajuste no valor recebido por entrega feita, seguro contra acidentes durante a jornada laboral e fim dos bloqueios injustificados pelos aplicativos, que impedem que eles consigam aceitar novas entregas. Apesar de não terem vínculos trabalhistas, eles também pedem para ser reconhecidos como funcionários e não como empreendedores, forma como são tratados pelas principais empresas do setor. Os aplicativos afirmam que implementaram seguros para garantir a segurança dos trabalhadores durante a pandemia e negam ter baixado taxas neste período, uma das queixas dos manifestantes.

Mesmo com a intensa movimentação nas redes sociais —chegando a se tornar um dos assuntos mais comentados no Twitter—, o protesto deste sábado teve menor adesão do que o realizado em 1º de julho. O EL PAÍS ouviu os relatos de seis manifestantes que estiveram na mobilização de São Paulo e que pedem maior reconhecimento por seus trabalhos.

“Aplicativos estão rodando como nunca, mas as taxas só vêm caindo”

Renato Assad, 27 anos. Motoentregador durante breque dos apps, em São Paulo.

Entregador há dois meses, desde que ficou desempregado, Renato Assad, de 27 anos, diz que participa da mobilização porque se sente desamparado pelas empresas que administram os aplicativos. Ele afirma que diversos entregadores ou se acidentaram ou morreram e eles ou seus familiares não receberam nenhum auxílio das companhias para quem prestavam serviço. “A nossa vida vale muito mais que levar o prato de comida para as pessoas”. Assad reclama ainda dos valores pagos, que variam de 4 a 7,50 reais, conforme a distância percorrida. “Os aplicativos estão rodando como nunca, cada vez mais aumentando o número de entregadores e entregadoras, mas as taxas só vêm caindo”.

“Os aplicativos usam a nossa necessidade para nos explorar”

Diógenes Silva de Souza, 43 anos. durante ato em São Paulo.

O motoentragador Diógenes Silva de Souza, de 43 anos, trabalha há um ano com aplicativos de entrega. “No começo, era uma renda extra. Agora é a única renda, por causa da pandemia de coronavírus”. Desde que a crise sanitária se agravou, ele reclama da redução dos valores pagos pelas companhias e dos altos custos que têm com combustível, alimentação e manutenção das motocicletas. “Tem muito boy na rua, e eles [os apps] estão baixando as taxas porque sempre tem alguém para aceitar uma taxa ruim. Os aplicativos usam a nossa necessidade do momento para nos explorar”

“Não tenho como falar com uma pessoa do iFood, falo com um robô”

Há 25 anos Altemísio do Nascimento, de 52, circula pelas ruas de São Paulo fazendo entregas em sua moto. Nos últimos anos, se viu forçado a atender por meio de aplicativos de entrega. “Mudei para os aplicativos porque eles dominaram todo o mercado. Não temos mais parcerias”. Sua principal queixa são os bloqueios temporários e injustificados que as empresas fazem com os entregadores, o que os impedem de seguirem trabalhando. “Se eu sou bloqueado, não tenho como falar com uma pessoa do iFood, eu falo com um robô. É um total descaso com o trabalhador”. E quando é bloqueado, qual é a sua reação? “Não posso ser descartado dessa maneira. Tem de ter respeito”.

“Queremos ser reconhecidos na sociedade pelo nosso trabalho”

Não é só pelo dinheiro que José Raimundo Correa Filho, de 26 anos, está se mobilizando junto a outros entregadores. “Queremos ser reconhecidos na sociedade pelo nosso trabalho. Corremos risco de pegar um coronavírus, de ser atropelados, de sofrer acidente todos os dias”. Desempregado, ele postergou seu sonho de cursar uma universidade para poder levar algum dinheiro para casa. Trabalha de 10 a 12 horas por dia. E, na maioria das vezes, não tem nem um banheiro para ir enquanto busca comida nos bares e restaurantes e a entrega para os clientes. “Não quero ter essa vida para sempre”.

“Tiro menos de um salário mínimo por mês”

João Pedro Campos, de 29 anos, está seis meses trabalhando como entregador de comida por meio de aplicativos. Nos últimos quatro notou uma piora nas condições de trabalho, apesar de fazer jornadas de até 14 horas diárias. “Ficamos muito tempo esperando os pedidos. Às vezes uma hora e temos de ficar disponíveis o dia inteiro”. Ao final de 12 horas de jornada, ele recebe cerca de 900 reais líquidos. “Tiro menos de um salário mínimo por mês”, afirma. O mínimo no Brasil hoje é de 1.045 reais.

“Para juntar 100 reais por dia é uma caminhada”

Estudante do último semestre de administração de empresas, Vinicius Felix da Silva, de 27 anos, decidiu se juntar ao grupo de entregadores antifascistas. Não é só pelo dinheiro, mas pela mobilização da classe. ”Não pretendo ficar como entregador para sempre. Tenho uma carreira a seguir. Tem muitos caras que trabalham só com isso. Decidi fechar com eles”. Durante o ato deste sábado, ele diz que a principal reivindicação é alimentação porque, apesar de estarem transportando comida o tempo inteiro, nem sempre os entregadores conseguem se alimentar. “Para juntar 100 reais por dia é uma caminhada”.

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